• EN
  • LinkedIn
  • Facebook
Você está em: Início > "Os Festivais de Cinema, as Cidades e o Turismo", por Professor Doutor Jorge Lopes

"Os Festivais de Cinema, as Cidades e o Turismo", por Professor Doutor Jorge Lopes

Artigo de Opinião publicado no semanário Vida Económica

Nos dias de hoje, parece verificar-se um consenso significativamente alargado no sentido de sublinhar a importância dos festivais de cinema no contexto dos eventos de carácter cultural, num âmbito mais restrito, e do respetivo impacto nos destinos turísticos onde estes ocorrem, num cenário mais alargado. Diversos autores consideram mesmo que se trata da tipologia de evento cultural que tem obtido mais sucesso e, neste contexto, será pertinente recuar um pouco no tempo e tentar perceber a génese deste género de manifestação cultural coletiva. 
O conceito de "Festival de Cinema" surge em 1932 com o primeiro festival (em Veneza) a ser organizado segundo um conjunto de parâmetros que, anos mais tarde, viriam a ser considerados essenciais para caracterizar este género de eventos. Neste caso, tratou-se de uma reformulação de um modelo que partiu de várias experiências anteriores, apresentando como características definidoras a periodicidade anual da organização, o estabelecimento de datas pré-determinadas para a exibição dos filmes e ainda o enquadramento do evento num cenário destinado à elite do cinema internacional, rodeado pelo glamour das estrelas de cinema. De Valck propõe uma explicação para o aparecimento da designação "Festival de Cinema", com o objetivo de identificar uma origem plausível para justificar o uso corrente da expressão. Na opinião da autora, os termos em causa remetem para uma matriz antropológica relacionada com os festivais comunitários realizados no contexto das nações, regiões ou grupos étnicos que pretendiam confirmar e consolidar as suas identidades culturais (De Valck, 2007). O fenómeno dos Festivais de Cinema conheceu uma evolução acentuada no período que se seguiu ao final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), tendo como ponto de partida para este ressurgimento a criação do Festival de Cinema de Cannes em 1946, que se mantém nos dias de hoje como a referência mais emblemática deste tipo de eventos. Nesta fase de desenvolvimento, os profissionais ligados a esta área começaram a compreender que os festivais de cinema não se limitavam a ser mostras temáticas de filmes, mas que poderiam ser essenciais para a lógica de funcionamento da própria indústria cinematográfica e para outro tipo de impactos e repercussões, designadamente na área do turismo, como é seguramente o caso da associação que pode e deve ser estabelecida entre a organização de um festival e a estratégia de marketing promocional da cidade onde esse evento decorre. Harbord corrobora esta visão, identificando quatro discursos operativos que funcionam no âmago dos festivais de cinema e que o distinguem dos modelos matriciais dos restantes eventos culturais: (1) Discurso dos produtores e realizadores; (2) Discurso de representação dos media; (3) Discurso dos negócios, acordos e transações que ocorrem durante e após os festivais, e (4) O discurso do Turismo e da indústria dos serviços (Harbord, 2002). 
No contexto das questões essenciais que devem ser consideradas quando se equaciona o papel a desempenhar por um evento como um festival de cinema, deverá ser dada uma atenção particular à questão da marca e também à importância dos festivais nas estratégias de marketing das cidades. Donald Getz nomeia três discursos que são intrínsecos a qualquer evento cultural e que naturalmente se podem integrar nos processos estratégicos e operacionais de um qualquer festival cinematográfico: (1) O discurso dos papéis, significados e impactos dos festivais na sociedade e na cultura; (2) O discurso do turismo, relacionado com o marketing das cidades; (3) e o discurso da gestão dos festivais, que tem a ver com as práticas empresariais envolvidas na organização de um festival (Getz, 2010). O autor recorda a importância da imagem de marca gerada por este género de eventos, um factor que poderá potenciar a própria imagem da cidade onde o evento decorre. Pedersen e Mazza (2011) consideram mesmo que um festival é um instrumento decisivo para construir ou reformular a identidade de uma cidade. A associação que poderá ser estabelecida entre o marketing das cidades e a estratégia de branding de um festival de cinema é também referida por Segal (2010), que considera estes elementos cruciais para a identidade do festival e, por inerência, para as estratégias de marketing das cidades. O autor acrescenta o exemplo determinante de Cannes, por se tratar de uma pequena cidade, com apenas 70.000 habitantes, que depende do festival de cinema para obter retorno financeiro e manter a sua reputação de estância turística. O autor sugere mesmo que o festival já se tornou mais importante do que a cidade. 
Esta relação direta entre os interesses próprios de um festival de cinema e o marketing das cidades onde o mesmo decorre é um aspeto nuclear, dado que os festivais contribuem de forma significativa para a regeneração das economias da Europa, através do desenvolvimento das respetivas cidades. Esta opinião é novamente partilhada por Segal, que chega a uma conclusão fundamental: as cidades que hospedam este tipo de eventos encontraram formas de retirar benefícios do interesse generalizado provocado pela repercussão mediática que eles obtêm. Perante estas realidades, fica claro que os festivais de cinema são excelentes oportunidades de marketing para as cidades onde se realizam, enquanto dispositivos de identificação, divulgação e promoção dessas mesmas cidades. No entanto, trata-se de uma tarefa que comporta inúmeros desafios e a incerteza de múltiplos riscos e que, nos dias de hoje, enfrenta um conjunto de dificuldades, sobretudo de cariz económico e financeiro, que constitui uma séria ameaça à continuidade deste género de evento. Neste contexto, merece sem dúvida amplo destaque o notável esforço empreendido por Mário Dorminsky e Beatriz Pacheco Pereira no sentido de prosseguirem com a organização do Festival de Cinema do Porto, o Fantasporto, que, desde o início dos anos 80, vem enfrentando ventos e marés contrárias que não cessam de materializar obstáculos e de impor dificuldades. Neste cenário quase hostil, permanecem as dúvidas acerca do futuro deste Festival de Cinema, que, entretanto, já se transformou num ícone cultural da cidade do Porto. 
É absolutamente necessário que as diversas instâncias envolvidas neste processo, desde a organização do festival, passando por diversos stakeholders que são peças fundamentais nesta engrenagem nem sempre funcional, encontrem e ativem plataformas de entendimento mútuo que possam conduzir ao único objetivo realmente importante: a promoção da cidade do Porto como destino turístico de excelência, no sentido em que pode enriquecer a sua oferta de experiências culturalmente diferenciadas e marcantes, colaborando na organização deste festival mítico que já faz parte do património afetivo e das memórias de várias gerações de cinéfilos.