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"Etnocentrismo e Turismo" por Professor Abílio Vilaça

Artigo de Opinião

Professor Abílio Vilaça escreve sobre "Etnocentrismo e Turismo", no seu artigo de opinião publicado no semanário Vida Económica.

"Estão em voga os impressionantes números de crescimento do turismo entre nós, o que naturalmente nos deixa entusiasmados e otimistas quanto ao futuro mais próximo. Acontece que esse crescimento tem resultados de uma tendência que se vai mantendo, o que traduz uma situação ainda mais interessante. Observando os números das estatísticas oficiais e sobretudo os expressos na conta satélite do turismo não restam dúvidas sobre essa evolução muito positiva. 

Motivados pelo clima favorável de desenvolvimento do setor, os órgãos de comunicação social têm vindo a anunciar frequentemente o investimento em novos hotéis, a criação de novas empresas de animação turística, a criação de novos parques temáticos, a realização de eventos de maior ambição internacional e sobretudo o reforço da ação dos municípios na concretização de agendas culturais e de animação concelhia de melhor qualidade.

Existe sem dúvida uma dinâmica com um foco de investimento concentrado no domínio do turismo e que está a mobilizar forças económicas e sociais naquela direção. São frequentes as comunicações públicas de membros do governo, de líderes autárquicos e de empresários e dirigentes associativos que destacam o importante papel do setor do turismo na sociedade portuguesa. 

Os méritos do país no âmbito do turismo são fantásticos, como se podem ver pelos destaques que publicações especializadas nos atribuem, a World Travel Awards destaca 14 prémios a nível europeu e 4 a nível mundial, a World Economic Forum, considera Portugal o 15º país no índice de competitividade em Viagens e Turismo, o Instituto para a Economia e Paz-2016, atribui a Portugal o 5º lugar como país mais seguro do mundo no ranking mundial.

O Jornal I anunciou no final de 2016 para Lisboa a inauguração de cerca de 40 novos hotéis em Lisboa até final de 2017, o Diário de Notícias anunciou para o ano de 2017, 29 novos hotéis só no município de Lisboa e a Lusa anunciou para a cidade do Porto a inauguração de mais 30 hotéis entre 2016 e 2017. 

Na cidade de Braga, foi recentemente anunciado a transformação do velho hospital de S. Marcus num Hotel de Charme, no velho e abandonado cinema S. Geraldes está agora prevista a sua transformação em hotel e também no velho tribunal da cidade a mesma opção por uma unidade de alojamento. De uma assentada 3 novos hotéis irão aparecer no centro histórico da cidade.

O organismo internacional, Airports Council International, uma associação profissional mundial de operadores de aeroportos, destacou o nosso aeroporto como o melhor em qualidade de serviços, para infraestruturas aeroportuárias, entre 5 e 15 milhões de passageiro por ano. Repare-se que estas distinções têm vindo a ser continuadas ao longo de uma década, pois entre 2006 e 2011 o aeroporto havia ficado classificado nos três primeiros lugares, obtendo o 1º lugar em 2007 e novamente o 3º lugar em 2013, 2014 e 2015.

As notícias que se vão conhecendo deixam-nos otimistas quanto ao desenvolvimento deste setor. A Academia em termos nacionais também tem focado a formação de quadros superiores e de licenciados, mestres e doutores em turismo e hotelaria de forma muito assertiva. Na nossa região as instituições do ensino profissional e do ensino superior têm uma oferta formativa, desde há alguns anos, vocacionada para o turismo.

O que não nos pode deixar sossegados são os tristes acontecimentos recentes, dos atentados terroristas de Londres. São acontecimentos que têm vindo a marcar uma época confusa e complexa. É um novo desafio para todos os países que vivem do turismo. Temos de má memória os atentados da ETA em Espanha, do IRA em Inglaterra que por décadas marcaram ações de terrorismo marcadamente político. Hoje temos um terrorismo esquizofrénico, apenas orientado a criar medo e terror.

A paz é essencial ao desenvolvimento do turismo. É um setor que necessita de segurança e de estabilidade económica e social para poder progredir. A cultura fomenta o turismo, e os turistas procuram conhecer culturas diferentes. O conhecimento de outras culturas e o interesse do homem pelo desconhecido fomentam uma oferta diferente, mais rica e que torna mais ricos os que dela beneficiam.

O encontro com o desconhecido desperta curiosidade e abre a inteligência a uma nova atitude de entendimento dos outros e das diferenças que possuem. Essa capacidade de compreender a diferença e de a saber respeitar é essencial no ambiente e cultura turística.

O professor Guimarães Rocha (1986) concretiza a definição de que o ¿Etnocentrismo é uma visão de mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, nossos modelos, nossas definições do que é a existência.¿ Essa visão é pobre na atualidade, pois a perspetiva etnocêntrica tem afinal fomentado que nos dias de hoje ainda persistam ideais fomentados numa visão egocêntrica do mundo.

A etnicidade corresponde naturalmente a uma saudável definição no que concerne aos objetivos do turismo, já que, nos abre uma perspetiva antropológica de grupo estruturado com uma língua e uma cultura comum, que dá identidade singular aos diferentes países e povos que aí vivem. É, pois, essa singularidade que o turismo procura promover, nomeadamente no turismo cultural.

Nesta dupla necessidade de equilíbrio social, importa olhar o turismo e a etnicidade como elementos vitais na evolução da espécie humana, da democracia e da liberdade. Só as regiões e países que compreendam essa ligação terão sucesso no desenvolvimento do turismo. O respeito pela multiculturalidade é essencial no desenvolvimento do turismo. É mais um desafio para os líderes nacionais aos diferentes níveis, o de fomentar uma sociedade capaz de compreender o multiculturalismo e de o respeitar. 

Relembra-se que os membros da Organização Mundial do Turismo, de que Portugal, e bem, sempre fez parte, já na Assembleia Geral de 1 de outubro de 1999, em Santiago do Chile reafirmou os objetivos do artigo 3º dos Estatutos da OMT. Nesse importante documento, reconhece-se que a OMT, tem tido um papel ¿decisivo e central¿ na promoção e desenvolvimento do turismo, visando contribuir para a expansão económica, compreensão internacional, paz, e prosperidade, bem como para o respeito universal e observância dos direitos do homem e liberdades fundamentais, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião. 

É neste contexto que se assume a partir de então o Código Mundial de Ética do Turismo, que ajuda a compreender a verdadeira dimensão do setor e, como nos poderemos melhor posicionar ao nível nacional, regional e local para usufruir das vantagens que o turismo proporciona. 

O Código Mundial de Ética no Turismo vem reafirmar o direito ao turismo e à liberdade das deslocações turísticas e promove uma ordem turística mundial, equitativa, responsável e sustentável, em benefício partilhado de todos os sectores da sociedade, num contexto de uma economia internacional aberta e liberalizada.

A promoção e divulgação dos valores, princípios e articulado do Código Mundial de Ética do Turismo, deve ser um desafio para todos os que têm responsabilidades políticas e académicas aos diferentes níveis, para podermos contribuir para uma melhor sociedade no presente e no futuro."

- in Semanário Vida Económica, 12 de janeiro de 2018